Como é que um terramoto mudou a forma de pensar da Europa?
Na manhã de 1 de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, as igrejas de Lisboa estavam cheias. Por volta das nove e meia, a terra começou a tremer. Hoje estima-se que o sismo teve uma magnitude entre 8,5 e 9,0, e continua a ser o mais destruidor da história da Europa.
Igrejas e casas de pedra oscilaram e caíram sobre quem estava lá dentro. Os sobreviventes correram para o espaço aberto junto ao rio, o lugar mais seguro que conseguiram imaginar. Em menos de uma hora, um maremoto com vários metros de altura subiu o Tejo e varreu a zona ribeirinha. Entretanto, as velas acesas para o dia santo tinham ateado incêndios por toda a cidade, que arderam durante cinco dias.
Ninguém sabe ao certo quantas pessoas morreram. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) aponta para cerca de 60 000, perto de um quarto da cidade. O rei D. José I só sobreviveu porque estava num palácio fora da cidade. Durante o resto da vida teve medo de estar dentro de edifícios, e viveu numa grande tenda.
Isto foi a catástrofe. O que a torna digna de ser lembrada é o que se fez com ela a seguir.
A pergunta que ninguém podia evitar
Em 1755, muitos europeus instruídos acreditavam, de uma forma ou de outra, que o mundo estava ordenado por um Deus bom e que, visto de bem alto, tudo acontecia pelo melhor. O filósofo Leibniz defendera que este era “o melhor dos mundos possíveis”. O poeta inglês Alexander Pope escrevera: “Tudo o que é, está certo.”
E de repente uma capital católica ficava arrasada num dia santo, com o seu povo em oração.
Voltaire, o escritor mais famoso da Europa, respondeu em 1756 com um longo poema sobre o desastre de Lisboa. A pergunta dele era simples: que mal tinham feito as crianças esmagadas nos braços das mães para o merecer? Três anos depois foi mais longe. Em Cândido (1759), o herói atravessa o terramoto de Lisboa na companhia do Dr. Pangloss, um preceptor que insiste que tudo está pelo melhor enquanto tudo à sua volta corre mal. O livro era uma comédia, e demolidora.
Jean-Jacques Rousseau respondeu a Voltaire em agosto de 1756 com outro argumento, e talvez seja a coisa mais moderna que alguém disse sobre Lisboa:
Não foi a natureza que ali juntou vinte mil casas de seis e sete andares, e se os habitantes desta grande cidade estivessem mais bem distribuídos e mais levemente alojados, os estragos teriam sido muito menores, e talvez nenhuns.
Ou seja, o sismo foi natural, mas boa parte da catástrofe foi obra humana. Quem estuda desastres hoje ainda parte dessa ideia.
E em Königsberg, um jovem filósofo chamado Immanuel Kant publicou em 1756 três ensaios a tentar explicar as causas dos sismos. A resposta dele (gases quentes em cavernas subterrâneas) estava errada. Mas procurava uma causa natural e não divina, e essa era a pergunta certa.
Treze perguntas
Em Lisboa, a resposta foi dirigida pelo ministro do rei, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde conhecido como Marquês de Pombal.
É-lhe muitas vezes atribuída a célebre resposta ao rei: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” Provavelmente não foi ele que a disse. Os historiadores atribuem as palavras (numa versão mais longa, que termina em “e fechar os portos”) a outro fidalgo, o Marquês de Alorna. É uma boa história. Só que é de outra pessoa.
O que Pombal fez com certeza foi mais curioso, e mais duradouro. A 26 de janeiro de 1756 enviou aos bispos do reino um inquérito com treze perguntas, para ser passado a todos os párocos. A que horas começou o terramoto? Quanto tempo durou? O mar subiu ou desceu primeiro? O que aconteceu aos poços e às fontes? Nenhuma pergunta sobre o pecado, nenhuma menção a Deus. Responderam mais de seiscentas paróquias.
Foi uma tentativa de recolher factos sobre um sismo num país inteiro, e muitos consideram-na o início da sismologia moderna.
A reconstrução seguiu o mesmo espírito. A antiga cidade baixa deu lugar à Baixa: ruas direitas em quadrícula, prédios da mesma altura e, dentro das paredes, uma estrutura flexível de madeira, a gaiola pombalina, pensada para dobrar quando a terra treme em vez de partir.
Fontes
- USGS, Today in Earthquake History (1 de novembro) · earthquake.usgs.gov
- Hakai Magazine, The Earthquake That Brought Enlightenment · hakaimagazine.com
- Lisbon Quake, O inquérito ao terramoto · lisbonquake.com
- Lisbon Quake, Os ministros do rei (sobre o Marquês de Alorna) · lisbonquake.com
- Poème sur le désastre de Lisbonne · en.wikipedia.org
- Rousseau, Lettre à M. de Voltaire (18 de agosto de 1756), edição original · archive.org
- Os ensaios de Kant sobre sismos, em The Lisbon earthquake and the scientific turn in Kant’s philosophy · researchgate.net
- Gaiola pombalina · en.wikipedia.org
- Atlas Obscura, Carmo Convent Ruins · atlasobscura.com